E se as coisas derem certo, você sustenta?

E se as coisas derem certo, você sustenta?

Existe uma pergunta que quase ninguém faz quando começa algo novo.
Ela não aparece no primeiro dia do ano, nem nos discursos motivacionais, nem nos planos escritos em agendas novas.
É uma pergunta que só surge quando a possibilidade deixa de ser fantasia e começa a parecer real.

E se der certo?

No início, todo mundo teme o fracasso. O fracasso é previsível.
Ele tem explicação, tem narrativa pronta, tem colo social.
“Não era o momento.”
“Faltou oportunidade.”
“Eu tentei.”

O fracasso absolve.

Mas o sucesso não. O sucesso imputa.

No direito, quando um ato produz efeitos, nasce uma responsabilidade.
E quando você escolhe crescer, aparecer, liderar ou prosperar, você produz efeitos, em você e nos outros.
Mesmo quando não percebe. Mesmo quando não pediu.

Ninguém te avisa que vencer exige estrutura emocional, ética e mental.
Que dar certo cansa mais do que tentar.
Que continuar é mais difícil do que começar.

Porque quando as coisas começam a funcionar, o mundo muda de postura.
O incentivo vira expectativa.
O apoio vira cobrança.
A curiosidade vira vigilância.

E, de repente, você não responde mais só por si.

Você responde pela constância.
Pelo que prometeu sem dizer.
Pelo padrão que criou.
Pela imagem que construiu.

No jurídico, chamamos isso de ônus.
Na vida, chamamos de peso.

Sustentar o sucesso é lidar com o silêncio depois do aplauso.
É acordar em dias comuns sem a adrenalina do começo.
É fazer o certo quando ninguém está olhando, principalmente quando todos acham que você já “zerou o game”.

Porque o sucesso não vem com manual de manutenção.
Ele vem com riscos ocultos.

O risco da soberba.
O risco da pressa.
O risco de negociar valores em nome de resultados.
O risco de se tornar refém da própria performance.

E há ainda o risco mais sutil de todos: o medo de perder aquilo que você ainda nem teve tempo de aproveitar.

Pouca gente fala disso, mas o sucesso cria ansiedade jurídica e emocional.
Você passa a agir como se estivesse sempre em fase de prova.
Como se precisasse justificar a própria posição.
Como se qualquer erro pudesse anular tudo.

E não, não é síndrome do impostor.
É consciência tardia de responsabilidade.

Janeiro costuma ser vendido como o mês do “recomeço”.
Mas talvez ele devesse ser o mês do compromisso lúcido.

Menos promessas grandiosas. Mais pactos silenciosos consigo mesmo.

Porque começar exige coragem. Mas sustentar exige caráter.

E caráter não se improvisa quando dá certo. Ele é testado.

Então antes de desejar visibilidade, crescimento, dinheiro ou reconhecimento, talvez valha encarar a pergunta que ninguém quer responder em voz alta:

Você está disposto a ser consistente quando ninguém te empurrar?
A ser ético quando o atalho parecer inofensivo?
A ser disciplinado quando a empolgação acabar?
A ser responsável quando o sucesso não permitir mais desculpas?

Porque se as coisas derem errado, você explica.
Se derem certo… você sustenta.

E isso muda tudo.

Porque no Direito Civil, especialmente no campo dos contratos, crescer não é apenas conquistar, é assumir obrigações.

Todo avanço gera acordos. Alguns escritos. Outros silenciosos.
Mas todos juridicamente relevantes.

Quando as coisas começam a dar certo, surgem parcerias feitas na confiança, serviços ajustados “de boa-fé”, combinações firmadas em mensagens curtas, áudios e apertos de mão. E é justamente aí que mora o risco.

O contrato não existe para desconfiar das pessoas.
Ele existe para proteger a relação quando a realidade muda.

Porque muda.

Mudam as expectativas.
Mudam os interesses.
Mudam as condições.
E o que antes era alinhamento passa a ser interpretação.

Nos contratos, o conflito raramente nasce da má-fé inicial.
Ele nasce da falta de clareza.
Da ausência de limites.
Daquilo que ficou “subentendido”.

Sustentar o sucesso, sob essa perspectiva, é entender que contratos não travam o crescimento, eles o viabilizam.
Eles organizam, delimitam, equilibram.
Eles permitem que o vínculo sobreviva ao tempo, ao dinheiro e às emoções.

E talvez maturidade jurídica não seja apenas saber negociar boas oportunidades,
mas saber formalizá-las com responsabilidade, previsibilidade e segurança.

Porque quando tudo vai bem, o contrato orienta.
Quando algo sai do eixo, ele protege.

E quem entende isso cedo, cresce com menos ruído, menos desgaste e menos risco.

Então eu te devolvo a pergunta, agora sem romantismo:

E se as coisas derem certo, você sustenta?

Porque crescer sem estrutura jurídica costuma cobrar seu preço.

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